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Inovações a distância

Inovações a distância

Tamara Castro
27/08/2020
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Durante o período de distanciamento social em razão da pandemia de Covid-19, muitas redes e escolas passaram a adotar práticas de ensino remoto a fim de dar continuidade aos processos educativos iniciados presencialmente. Nesse contexto, os educadores se deparam com desafios de diversas naturezas que levaram a transformações adaptações nos modos de construir conhecimento e promover a interação com e entre os estudantes.

Diante desse cenário, uma reflexão importante é: como desenvolver uma educação inovadora no ambiente remoto? Sabemos que a simples adoção das tecnologias digitais não garante processos pedagógicos que estimulem a colaboração, o protagonismo e a criatividade entre os(as) educandos(as), promovendo aprendizagens significativas e de qualidade para todos e todas. Nesse sentido, que princípios e estratégias devem ser observados nas práticas educativas a distância?

Para refletir sobre essas questões, conversamos com especialistas em diferentes áreas da educação, buscando contemplar diferentes aspectos desse tema. Confira!


ENSINO REMOTO PARA UMA EDUCAÇÃO INOVADORA

De que maneira as novas tecnologias de informação e comunicação podem colaborar para a construção de processos educativos que promovam a criatividade, colaboração e o protagonismo dos estudantes? A coordenadora de EAD do CENPEC Educação, Adriana Vieira*, traz elementos que nos ajudam a refletir sobre esse tema.

Como tornar as tecnologias digitais aliadas de uma educação inovadora, significativa para todos e todas, e não apenas uma ferramenta para um ensino baseado em transmissão de conteúdo?

Essa integração envolve mudanças no papel do professor e do aluno, por meio de novas práticas educativas, com metodologias mais ativas, que possibilitem a aprendizagem significativa, contextualizada e alinhada à cultura contemporânea, considerando o aluno um sujeito ativo na construção de seu conhecimento.“Para que possa representar mudança e inovação na educação, é preciso promover uma integração das tecnologias digitais ao currículo e, sobretudo, à intencionalidade educativa dos educadores

Além disso, deve promover a superação de alguns paradigmas na educação, como o ensino focado apenas na transmissão de conteúdo. As práticas pedagógicas inovadoras integradas às tecnologias digitais devem permitir o desenvolvimento de autonomia, colaboração, criatividade e capacidade crítica dos professores e alunos por meio das novas ferramentas tecnológicas e de diferentes linguagens.”

Tratar de um assunto presencialmente é diferente de dar uma aula on-line ou que ficará gravada. Quais são os principais pontos que os professores devem observar ao planejar suas aulas remotas?

“Primeiramente, é preciso considerar as condições de acesso e conexão dos alunos, assim como a faixa etária, para planejar os objetivos de aprendizagem, estratégias e recursos/ferramentas digitais a serem utilizados. Depois recorrer a estratégias formativas que consideram a diversidade de linguagens (áudio, vídeo, imagem e texto) e de tempo (atividades síncronas e assíncronas), além de atividades que promovam a interação e a colaboração dos alunos.”

A avaliação da aprendizagem deve ser processual, na qual a partir do acompanhamento das atividades desenvolvidas pelos estudantes, o professor considere a construção do conhecimento de cada um e replaneje as estratégias e uso de recursos/ferramentas digitais. Para esse acompanhamento, a tecnologia pode ser uma grande aliada.

Por fim, penso que, nessa situação de aulas remotas, o professor precisa exercitar muito suas habilidades comunicativas, tanto com os alunos para engajá-los nas atividades e explicitar muito bem o que se espera deles nas atividades, como também com os familiares, que precisam apoiar mais os estudantes.”

*Adriana Vieira: graduada em Letras pela Universidade de São Paulo (USP), tem especialização em gestão tecnológica e educação pela Universidad Autónoma de Madrid e mestrado em linguagem em novos contextos pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). É especialista em Tecnologia de Informação e Comunicação (TIC) e educação e EaD e coordenou projetos nessa área, como o Portal EducaRede (CENPEC Educação/Fundação Telefônica). 


ENSINO PERSONALIZADO: UM CAMINHO POSSÍVEL

Um dos diversos caminhos de inovação em pauta que podem ter as tecnologias digitais como aliadas é a personalização do ensino. Essa proposta parte da ideia de que cada estudante é único: traz diferentes origens e referências culturais, interesses, talentos e habilidades. Essa subjetividade influencia sua forma de aprender. Desse modo, o conceito de personalização está centrado no protagonismo do estudante para que construa seu percurso de aprendizagem.

Para falar desse caminho de inovação, conversamos com Andrés Reyes*, autor do curso Inova Escola - Personalização, parceria entre o Instituto Singularidades e a Plataforma Escola Conectadas.

Quais são os objetivos do ensino personalizado? Quais são as condições necessárias para as escolas desenvolvam estratégias voltadas ao ensino personalizado?

“O grande objetivo da personalização é trabalhar a individualidade do estudante. Para atingir tal meta, o professor precisa criar estratégias para conhecer os estudantes para quem leciona, precisa saber suas facilidades e dificuldades de aprendizagem, seus interesses e desejos. Dessa forma, poderá desenvolver estratégias potentes de aprendizagem.

Para desenvolver a docência nessa perspectiva, é preciso valorizar e aprofundar o trabalho em equipe: dos gestores, dos professores, dos estudantes e das mães e pais. Por quê? É interessante lembrar que uma das representações muito arraigadas acerca da educação escolar é a de que todos devem aprender os mesmos conteúdos e usando as mesmas estratégias de ensino e aprendizagem! Por isso, a condição fundamental é trilhar uma escola democrática, que promova um amplo diálogo entre todos os sujeitos. Assim, é importante que a escola valorize as reuniões pedagógicas, as conversas com os estudantes, a participação das mães e pais. Enfim, a personalização exige diálogo e transparência, de modo que todos se vejam como sujeitos com conhecimentos a serem partilhados.

Além disso, para atingir tal meta, a equipe pedagógica precisa assumir uma postura pesquisadora. Portanto, a escola deve ter espaços de estudo, para leitura de textos que os ajudem a compreender e a desenvolver a personalização, identificar o seu lugar nas metodologias ativas. Também é preciso discutir questões curriculares, pois a personalização exige uma reorganização curricular, pensar em estratégias que valorizem as competências e habilidades no trato dos conteúdos,  valorizar os trabalhos interdisciplinares. 

Finalmente, a escola precisa repensar os espaços de aprendizagem para além da sala de aula: biblioteca com materiais diversificados e espaço que convide ao estudo; laboratórios de informática, de ciências e proporcionar as condições necessárias para o uso de tablets, laptops e computadores.”

Pode falar um pouco sobre o curso Inova Escola - Personalização? Quais são os conteúdos, objetivos e estratégias apresentadas para promover a aproximação dos professores a essa nova proposta pedagógica?

“O grande objetivo do curso é provocar os educadores no sentido de estudar suas práticas, analisá-las e dessa forma pensar em processos de ensino e aprendizagem que dialoguem com as problemáticas da contemporaneidade.

O curso teve como ponto de partida a publicação do livro Inova Escola: práticas para quem quer inovar na educação, da Fundação Telefônica. Cada capítulo procura sobre aspectos fundamentais da escola, quais sejam, a personalização, os recursos tecnológicos, os espaços, o papel do professor, a gestão  e  o projeto de vida.

Os conteúdos foram estruturados em três unidades. Na unidade 1, o cursista é convidado a refletir sobre o conceito de personalização e as razões para personalizar os processos pedagógicos. Na unidade 2, são apresentados alguns caminhos  possíveis para personalizar a aprendizagem; assim, refletiram sobre o conceito de currículo, as formas de avaliação, o ensino por meio de oficinas e projetos. Também conheceram algumas experiências significativas de escolas que procuraram personalizar seus processos pedagógicos. Na unidade 3, o cursista foi convidado a refletir sobre a sua realidade escolar, ou seja, identificar as principais características da comunidade escolar para sugerir práticas pedagógicas que tenham como norte a personalização.

O curso procurou apresentar escolas que têm a personalização como prática. Assim, puderam tomar contato com as experiências da Escola Municipal Professor Paulo Freire, de Belo Horizonte/MG, e da EMEF Desembargador Amorim Lima, de São Paulo/SP. Além disso, puderam conversar sobre suas certezas, dúvidas, experiências no fórum de finalização do curso. Além disso, os participantes tiveram acesso ao um material intitulado BNCC na prática,  uma animação síntese do conteúdo do curso e a um fórum final, no qual puderam avaliar o trabalho realizado. Para atingir tais objetivos, os cursistas tiveram que ler textos, assistir a vídeos, responder questões, conversar com outros participantes e o apoio de um tutor.”

*Andrés Reyes: mestre em Educação pela Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (USP). Bacharel e licenciado em História pela FFLCH/USP. Professor de Ensino Fundamental II e Ensino Médio desde 1991 em escolas da rede privada. Professor do curso de Ensino de História na Faculdades Integradas de Guarulhos (FIG) e de Pedagogia do Instituto Singularidades.


INTERAÇÃO E COLABORAÇÃO EM REDE: COMO PROMOVER?

A forma de construir a relação interpessoal e com os conteúdos no ensino mediado pelas tecnologias digitais é bastante diversa da estabelecida na modalidade presencial. Como os professores e gestores podem promover a participação dos estudantes nos processos pedagógicos desenvolvidos nesse contexto? A professora Maria Estela Lacerda Ferreira* traz elementos que nos ajudar a refletir sobre essas questões.

Uma das queixas entre educadores é a dificuldade de promover a participação e interação com os estudantes no ambiente remoto. Que estratégias podem ser adotadas para estimular a postura ativa dos alunos nesse momento?

“A queixa dos educadores é real. Tem sido um desafio para os professores promover e manter os alunos interessados e participativos durante as aulas em ambiente remoto. Alguns educadores chamam os estudantes pelo nome no ambiente virtual, na tentativa de obter uma resposta ou uma opinião frente a alguma pergunta ou afirmação; solicitam que as tais ‘janelinhas’ fiquem abertas para observarem os rostos das crianças. Essas tentativas podem não ser as melhores. Usar da autoridade que possuem é uma estratégia, mas não a mais adequada. 

Penso que precisamos aprofundar esses desafios. Para isso, é necessário refletir sobre as atividades planejadas:

  • Elas são adequadas para as aulas remotas? Elas foram transpostas do ensino presencial para o ensino distante? 
  • As atividades elaboradas para o ensino presencial mobilizam os estudantes para a participação espontânea nas aulas? Ou o professor dispunha de outros recursos para convidar os alunos a expressar ideias e opiniões, dar respostas, apresentar propostas? 

Observar os alunos no espaço da sala de aula, circular pelas mesas, aproximar-se dos alunos fisicamente, observar “olho no olho”, fazer a leitura corporal dos gestos, do rosto facilitam e envolvem mais fácil o aluno. Mas não será isso uma forma de controle que escapa das mãos do professor nesse momento atual?  

Por isso  a questão é mais séria e de outro nível. Como envolver os alunos com a aprendizagem, como torná-los interessados em buscar respostas para problemas reais, como envolvê-los em situações didáticas que mobilizem a criatividade, a pesquisa, a descoberta? Essas são interrogações que a educação, em especial escolas e professores, precisam fazer tanto no modelo presencial como no remoto. 

Trata-se de um desafio de outra natureza, não pode ser resolvido com soluções   pontuais, pois é mais amplo, exige aprofundamento de como os alunos aprendem atualmente, como utilizar ferramentas tecnológicas colocadas a serviço de propostas de aprendizagem desafiadoras.”

Qual o papel das famílias na construção de uma educação a distância com qualidade e significativa para todos? Como estreitar a parceria família-escola neste contexto de ensino remoto? 

“A parceria com as famílias é fundamental nesse momento. São elas que estão com seus filhos em casa, acompanhando de perto (ou não) aquilo que os estudantes realizam frente ao computador, tablet ou celular. Nesse contexto, é fundamental aproximar a família por uma comunicação contínua e efetiva, uma escuta ativa por parte da escola na tentativa de entender e interpretar os medos, as dúvidas, as preocupações e levar aos familiares as questões que a escola enfrenta atualmente. 

Que estratégias a instituição escola pode adotar para isso? Algumas ideias:

  • Promover reuniões remotas para compartilhar informações e informar decisões.
  • Formar grupos de mães, pais e familiares para auxiliar na escolha de caminhos respeitando as demandas das diferentes faixas etárias. 

Família e escola possuem os mesmos objetivos – o desenvolvimento dos filhos e dos alunos. Não são propósitos antagônicos, mas devem ser somados. Envolver, compartilhar, somar, escutar, confiar são ações possíveis que devem ser intensificadas para garantir essa aproximação. Pode  ser um bom momento de estreitar esses laços que o tempo tornou frágil.”

Como os gestores podem promover espaços e momentos de compartilhamento de ideias e experiências sobre a educação a distância?

“O papel do gestor/diretor é se antecipar às decisões, de leitura e interpretação de possíveis cenários envolvendo alunos, professores, escola e família. Ele ocupa o lugar de maestro que, sem músicos, não consegue reger a orquestra. Por outro lado, sem maestro o coletivo se perde. 

Com o distanciamento social provocado pela pandemia, as escolas tiveram que se reinventar de forma repentina, sem terem tempo de conversar e muito menos de planejar formas remotas para dar continuidade ao trabalho escolar presencial. Falamos aqui mais das escolas particulares, pois, nas públicas, o processo está sendo ainda mais lento ou até inexistente. 

Os gestores, assim como os educadores, estudantes e famílias, viveram um momento emergencial que passou e trouxe muitas aprendizagens. O segundo semestre letivo está começando e precisa de mais direção, de liderança, de um plano de ação mais efetivo. 

Sabe-se que é da competência do gestor realizar, continuamente, a leitura e análise da realidade da escola, das demandas existentes em médio, curto e longo prazo. Considerando-se o contexto atual e as mudanças que esse momento deverá provocar na educação, nas formas de ensinar e aprender, cabe a ele dar o apoio necessário aos profissionais que trabalham na instituição em relação à educação de forma remota, emergencial, e, posteriormente, aprofundar discussões sobre como a instituição deverá ou não promover encontros envolvendo os professores e pessoal de apoio para a educação on-line

Há medidas e decisões para o momento atual, mas há outras mais amplas, que não podem ficar à mercê de próximos desafios. Ações de médio e longo prazo precisam ser planejadas agora: 

  • estudos sobre o ensino e a aprendizagem dos estudantes no contexto atual; papel e função da escola; 
  • formação de um quadro de professores e pessoal de apoio com novos saberes; 
  • uso de recursos tecnológicos como suporte para o desenvolvimento de novas habilidades; 
  • promoção da criatividade, da colaboração, da construção de projetos coletivos. 

Em síntese, o gestor precisa ter um olhar no hoje, apoiando professores, construindo estruturas de trabalho, ouvindo famílias, buscando ajuda. Mas, precisa colocar um olhar no amanhã, aprender a identificar as demandas que ainda virão e antecipar-se a elas, planejando, estudando, pesquisando e buscando referências.” 

*Maria Estela Lacerda Ferreira: mestre em Supervisão Pedagógica pela Universidade Aberta de Portugal,  especialista em Educação a Distância e graduada em Pedagogia pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Desde 2003, é professora do Curso de Pedagogia do Instituto Singularidades

 

TAGS: Educação Inovação Desafio Escola

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