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Inovação escolar em tempo de pandemia

Inovação escolar em tempo de pandemia

Tamara Castro
24/06/2020
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No dia 12.06, às 16h, as  cinco equipes vencedoras nacionais se reuniram remotamente com assessores e coordenação técnica do CENPEC Educação. O objetivo do bate-papo foi compartilhar as mudanças vividas pelos projetos desde sua concepção até hoje. Desde março, os grupos estão sendo assessorados por especialistas para a implementação de seus Planos de Inovação, com ações para transformar o cotidiano das escolas onde atuam, em busca de uma educação significativa e de qualidade para todos os estudantes, professores e comunidade escolar.

As cinco escolas que estão recebendo as ações inovadoras têm características distintas: entre as três que atuam na zona rural, a maior delas, com 310 alunos, trabalha em período integral, enquanto a menor, com apenas uma professora, atende 13 alunos. As duas escolas situadas na zona urbana são institutos (federal e estadual) e oferecem ensino médio técnico e regular (veja quadro ao lado).

A fim de compartilhar as aprendizagens construídas, as equipes apresentaram brevemente os objetivos dos seus projetos, assim como os avanços e desafios da implementação. Como encerramento, os professores conversaram com Márcia Padilha Lotito, especialista em inovação e consultora do Desafio Inova Escola.

Confira alguns pontos abordados pelas equipes escolares por ordem de apresentação. Ao final, trazemos conceitos fundamentais na temática da inovação escolar expostos por Márcia Padilha durante a videoconferência.


Bastião Atômico: novo cronograma e parcerias com a comunidade

Como promover o uso consciente da água da escola pela comunidade a fim de desenvolver uma cultura de sustentabilidade? Essa foi a questão geradora do Plano de Inovação criado pela equipe da Escola Municipal de Tempo Integral São Sebastião, situada em Jaboatão dos Guararapes (PE).

Na reunião remota, os professores Luís André Jacinto e Ailton Brito contaram que um dos desafios foi adaptar para o formato remoto atividades que seriam desenvolvidas presencialmente. A equipe já fez o levantamento de custo das ações para implementação e o cronograma está sendo alinhado junto com o assessor técnico, Ricardo Amaral. 

Ações previstas no Plano de Inovação

  • oficinas e experimentos com robótica e tecnologia alternativa;
  • análise da qualidade da água captada da chuva;
  • construção de tubulação e reservatório sustentáveis com garrafa PET;
  • automação para irrigação da horta;
  • distribuição de água para os espaços da escola;
  • instalação de torneiras com sensor.

Além das conversas com o assessor toda quinta-feira, os professores têm realizado reuniões semanais entre si para fazer os encaminhamentos. “Nossas ações são bastante práticas e muitas exigem a participação da comunidade, que, infelizmente, nesse momento não é possível. Nós adaptamos ao formato remoto a primeira ação, que previa a busca de voluntários da comunidade para manutenções e consertos de tubulações”, conta o professor Luís André. Para  isso, foi criado um formulário eletrônico enviado para a comunidade via Whatsapp (imagem ao lado). Houve o retorno de aproximadamente 40 formulários preenchidos, mas ainda nenhum voluntário. O professor reforça as dificuldades do contexto de isolamento social em razão da pandemia, relacionadas à falta de recursos tecnológicos e acesso à internet pela comunidade do entorno. 

Em sua vez de fala, o assessor Ricardo Amaral parabeniza o engajamento da equipe na implementação do Plano. Segundo ele, o projeto encontrou algumas barreiras mas recebeu uma repaginada por meio das tecnologias digitais. “Houve alguns avanços no cronograma de ações, planejamento de parcerias. A equipe está no caminho certo, desenvolvendo bem o projeto dentro das circunstâncias”, afirma o assessor.

“A nossa escola tem uma cisterna que está desativada há um bom tempo. Em um momento em que lavar as mãos é vital, reativarmos essa cisterna seria fundamental”, revela Luís André, completando que o estado de Pernambuco está em processo de reabertura e dessa forma será possível reestabelecer contato direto com a comunidade para o desenvolvimento das ações.


Guerreiros do Campo: diálogo e aproximação com alunos e comunidade

Aproximar a estrutura e as atividades da escola à realidade dos estudantes, a fim de evitar a evasão e a repetência, é a proposta da equipe paraense da EMEF Joana Darc. Localizada na zona rural de Nova Esperança do Piriá (PA), a escola atende estudantes que ajudam o sustento da família, o que os leva a faltar semanas seguidas, causando dificuldades de aprendizagem e de integração na rotina escolar. 

“Apesar de serem crianças e adolescentes, nossos alunos têm uma participação ativa na obtenção de renda familiar. Então, nossa meta principal é oferecer à comunidade, especialmente aos pais, oficinas sobre reaproveitamento de produtos agropecuários e criar uma cooperativa para que possam ter outras possibilidades além do trabalho terceirizado”, conta a professora Maria Marcilene Alves da Silva. 

Além disso, a equipe está trabalhando na criação de um calendário escolar adaptado, diferente da rede regular, a fim de possibilitar a recuperação de estudos aos estudantes que precisam trabalhar e acabam faltando várias semanas de aula. “Alguns períodos são mais intensos, como do plantio e colheita de pimenta, e de produção da farinha, produtos locais”, revela a professora. Além disso, será implementado um sistema de avaliação diferente, para que esses alunos se mantenham integrados ao sistema escolar. (Ao lado, mapa mental com ideias centrais do Plano de Inovação da equipe.)

Maria Marcilene conta que uma das ações desenvolvidas foi uma pesquisa de campo para saber quais atividades agropecuárias a comunidade gostaria que fossem tratadas nas oficinas e agora a equipe fará  a contratação de pessoas para as palestras e iniciará as atividades práticas. “Foram muitos desafios, mas os avanços foram bem maiores”, comemora a professora.


Itavivo: metodologias ativas na integração escola-parque

A menor entre as vencedoras nacionais, a equipe Itavivo, é formada pelas professoras Martamiria D. S. Ferreira e Ewerlline Karen B. O. Martiniano, da Escola Municipal Constâncio Maranhão. Localizada na  zona rural de Vitória de Santo Antão (PE), a escola é vizinha de um antigo engenho que se tornou parque, o Itamatamirim, hoje explorado por atividades de turismo rural.

Em sua apresentação, a professora Martamiria relembra o desafio de sua equipe: integrar a escola ao parque natural garantindo aos estudantes uma visão holística da escola e seu entorno, de tudo o que faz parte de sua vida cotidiana.ara tanto, o Plano de Inovação contempla as seguintes dimensões: tempo, espaço currículo, prática pedagógica e relações. Essas dimensões foram materializadas em oito ações: 

    • reelaboração do Projeto Político Pedagógico (PPP);
    • elaboração do Projeto Didático envolvendo o desafio;
    • criação de blog para compartilhar produções dos estudantes; espaço maker com recursos que promovam o protagonismo, a criatividade e a autonomia dos estudantes;
    • realização de uma trilha ecológica e de um dia de lazer no parque com os estudantes;
    • criação de um aplicativo com informações da escola e do parque com base em pesquisas e entrevistas realizadas pelos alunos;
    • promoção de espaços de aprendizagens e trocas de experiências entre a escola e a comunidade;
    • criação de ambiente de interação em frente à escola.

Martamiria conta que a maioria das ações já foram iniciadas. Duas delas já estão bem encaminhadas: a  reelaboração do  PPP para garantir a integração de espaço já praticamente concluída, e o projeto didático, com metodologias ativas voltadas à  leitura, escrita, resolução de problemas, apresentado ao assessor, Ricardo Amaral. O blog já foi criado mas ainda não houve postagens, pois como os estudantes são crianças, precisam de acompanhamento para isso, o que foi impossibilitado pela suspensão das aulas. 

As demais ações já tiveram as datas iniciais definidas e para algumas foram feitos orçamentos on-line provisórios, aguardando a reabertura do comércio no estado. A criação do aplicativo foi a única ação que não teve o cronograma inicial definido por conta da pandemia, pois núcleo de tecnologia da cidade está sobrecarregado, conta a professora.

Em relação ao acompanhamento de Ricardo Amaral, Martamiria destaca o apoio com cronograma, orçamento e materiais de estudo e pesquisa. Emocionada, a professora encerra sua fala com as seguintes palavras para definir a assessoria técnica: diálogo, orientações, estudo, organização, possibilidades, validação, segurança e afetividade.


Inova IEMA: atravessar fronteiras disciplinares para uma aprendizagem significativa

Criar um currículo de Ensino Médio com integração entre a área técnica e os componentes da Base Comum Curricular (BNCC) é o desafio da equipe vencedora do Instituto Estadual de Educação, Ciência e Tecnologia do Maranhão (IEMA), Unidade Plena Itaqui-Bacanga.

Em sua apresentação, a professora Flavia Regina da S. Correa conta que, a partir de um diagnóstico inicial com a comunidade escolar e os estudantes, foi desenvolvida a proposta do ensino integrado como caminho para uma aprendizagem mais significativa e de qualidade, trabalhando o protagonismo dos estudantes e resolvendo o problema da sobrecarga de conteúdos, já que o currículo do ensino médio técnico é composto por muitas disciplinas.

Flavia relata algumas ações já desenvolvidas para a implementação deste Plano de Inovação, como a nova enquete  realizada no início de abril, utilizando o Google Forms, com os estudantes do 2o ano, em que puderam apontar os componentes que têm dificuldades. Também montaram um grupo de apoio envolvendo docentes e gestores da Base Técnica e Comum, além de estudantes.

A professora destaca o papel da assessora Patrícia Caldas na definição dos critérios para formação do grupo de estudantes: “São alunos protagonistas, engajados nas atividades da instituição  e que também têm acesso à internet, celular e computador em casa”.

A equipe já conseguiu realizar o planejamento integrado do Projeto Aulas Temáticas, a iniciar na semana de 15 a 19 de junho. Em algumas turmas, o projeto envolve as disciplinas de Física e Química, com o tema gerador "efeitos térmicos", e em outras a interdisciplinaridade será com Inglês e Química, em que haverá investigação no laboratório de química de modo remoto. Para a divulgação do projeto, professores e estudantes fizeram postagens em vídeos nas redes sociais da escola, anunciando o propósito dessas aulas inovadoras e convidando os alunos a participar. 

Entre os desafios da implementação, a professora aponta as dificuldades no engajamento de alguns profissionais e estudantes por conta do isolamento aliado à falta de recursos tecnológicos, além da necessidade de despertar o espírito inter/transdisciplinar do corpo docente e de divulgar o Plano de Inovação para a comunidade escolar. Flavia destaca o papel da assessoria, que traz muito suporte e promove reflexões fundamentais para o desenvolvimento das ações.

Por sua vez, a assessora Patrícia Caldas elogia o trabalho das idealizadoras do projeto: “São professoras muito comprometidas com a causa da escola e com a aprendizagem significativa, para além de suas disciplinas”. Patrícia ressalta que a escola está inserida em uma comunidade periférica que precisa ser valorizada, assim como os estudantes reconhecidos como sujeitos aprendentes. "O desafio encarado por essa equipe é muito grande, pois as escolas estaduais estão funcionando remotamente, mesmo sem as estruturas adequadas”. Nesse contexto, o trabalho da equipe se tornou ainda mais complexo. "É preciso dar um passo de cada vez. Se for preciso retomar algumas etapas, nós faremos isso. O importante é contagiar toda a comunidade para a participação em ações que sejam de fato inovadoras”, reflete.


IFF9: aprendizagem lúdica e significativa contra a retenção e evasão escolar

Uma Fábrica de Jogos na escola: esse foi o desafio criado pela equipe vencedora do Instituto Federal Fluminente (IFF) - Campus Itaperuna (RJ). Em sua apresentação, a professora  Michele Freitas conta que o motivador deste Plano de Inovação: a alta taxa de retenção e evasão logo no 1o ano do Ensino Médio. “Para vocês terem noção uma turma que começa com 70 alunos termina com 20, 22… Isso é um motivo de tristeza para nós, educadores: as oportunidades que se perdem ao longo do caminho”, conta Michele.

A aprendizagem lúdica e as metodologias ativas foram o caminho eleito pela equipe para transformar essa realidade e combater o problema da evasão e da retenção na escola. "Nossos estudantes cursam a área técnica junto com a área comum, o currículo é extenso, e nós percebemos que eles têm muitas dificuldades com operações matemáticas básicas, interpretação de textos e expressão escrita. Isso impacta na aprendizagem de todas as outras disciplinas e na continuidade dos estudos.  Nosso objetivo é trabalhar esses conteúdos básicos, porém de uma maneira mais divertida. A ideia é construir jogos, como se os alunos estivessem dentro de uma fábrica”. 

Para isso, a equipe está criando atividades que envolvem conhecimentos das disciplinas de Língua Portuguesa e Matemática simulando uma fábrica de jogos. Uma dessas atividades é a criação do estatuto da fábrica, que envolve o trabalho com textos. Outras atividades abarcam viagem pelo entorno, leitura literária, cálculos de custo e oficinas de criação de jogos (digitais ou não), envolvendo raciocínio lógico. Ao final, serão lançados os jogos criados pelos estudantes.

Algumas ações foram realizadas presencialmente no início do ano, conta Michele: "O nosso foco é o 1o ano. Temos várias turmas, mais de 200 alunos. Então o primeiro passo foi uma avaliação diagnóstica para perceber como essas turmas ingressantes estão chegando". Também foi realizado um momento de sensibilização, para apresentação do projeto a outras pessoas da comunidade, o que obteve grande sucesso, já que a equipe passou de 8 para 30 integrantes. A distância, foi elaborado um formulário de inscrição para a Fábrica de Jogos e um questionário sociocultural para perceber os interesses dos alunos e conhecê-los um pouco mais. 

No diálogo entre a equipe e a assessora Bruna Nunes, surgiu a ideia de gamificar a criação da Fábrica de Jogos. Assim, não só o produto (jogos criados pelos estudantes), mas todo o processo será um game. “A ideia é que os estudantes ganhem cargos mais avançados à medida que realizem as atividades e desenvolvam outras competências e habilidades. A cada ação realizada, o aluno vai marcando suas aprendizagens em um painel”.

Sobre a assessoria, a professora afirma: "Bruna nos ajudou a ser mais 'pé no chão' em alguns momentos, pois é um projeto bem desafiador”. Por sua vez, Bruna destaca o engajamento da equipe e afirma que houve uma evolução clara do projeto inicial, tendo em vista a necessária adequação ao contexto do ensino remoto.


Parcerias e pesquisas nos caminhos da inovação

Colaboração, escuta atenta da comunidade, busca de referências em outros campos do conhecimento são pontos em comum na implementação dos cinco Planos inovadores, observa Aline Yokoyama (foto ao lado), técnica do Desafio Inova Escola pelo CENPEC Educação. Essas ações revelam aprendizagens desenvolvidas na Trilha Formativa do Desafio, em 2019, que levaram à construção desses projetos, ressalta. Atividades como elaborar um orçamento, estabelecer parcerias dentro e fora da escola envolvem conhecimentos necessários para implementar os projetos.

“Uso de tecnologias digitais para realizar reuniões virtuais, registros no Padlet, conhecimentos sobre design, gamificação, política… vários saberes foram mobilizados para colocar em prática as ideias e sonhos”, reflete Aline, antes de introduzir a palestrante convidada, Márcia Padilha Lotito, especialista em inovação educacional que participou da construção das Trilha Formativa.

Márcia inicia destacando o papel central dos professores na implementação de inovações no cotidiano da escola: “Quem sabe o dia a dia docente com as crianças é o professor, a função do assessor é promover um compartilhamento de conhecimento com os docentes”.

Ao refletir sobre os pontos comuns nas apresentações das cinco equipes, a especialista destaca a importância do planejamento: “Nas escolas há pouco tempo de planejamento remunerado. É nesse momento em que se juntam dois elementos importantes para a inovação: imaginação e implementação. Não há mudança sem imaginação, o poder da imaginação é gigante”, afirma.

Ao tratar do pensamento de inovação, Márcia destaca que esta sempre é impulsionada por uma crise: “Seja desencadeada por um problema, seja por um desejo ou incômodo pessoal que levam a rever um caminho. Mas não há uma criação do zero. Partimos da nossa história pessoal e profissional”. Assim, aliar a nossa experiência humana e os usos que fazemos da tecnologia é fundamental no caminho da inovação: “Ela é orgânica para cada contexto”, reflete.

Márcia Lotito (foto ao lado) aborda alguns conceitos importantes à cultura de inovação, como o “paradigma aprendente”, um conceito oriundo da administração de empresas e do desenvolvimento de software que foi adaptado ao universo da educação e tem muita relação com este momento da pandemia. 

“O paradigma aprendente é um conceito muito usado por instituições que precisam se desenvolver em meio a mudanças constantes. A escola é uma instituição aprendente, que precisa se rever e aprender o tempo todo”. Nesse paradigma, o erro é visto de forma positiva, como uma possibilidade de aprendizagem: “Uma instituição que quer desenvolver uma cultura de inovação precisa ver o erro como um ganho”, reflete.

Por fim, a especialista apresenta a adaptação criada por ela com base no manifesto da Cultura Ágil, também originário do mundo dos softwares. Originalmente, esse manifesto apresenta 10 pontos, a adaptação para o universo escolar traz cinco pontos que devem ser observados para a instituição de um ambiente de inovação: colaboração e criatividade, comunicação constante, foco no valor, simplicidade e frequência. "Nessa roda de aprendizagem, a alegria institucional é fundamental. Todo mundo precisa ter prazer em aprender", afirma.

TAGS: Educação Inovação

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